POR UM FORRÓ AUTÊNTICO

ONALDO QUEIROGA

 

POR UM FORRÓ AUTÊNTICO
 
Um dia, Luiz Gonzaga deixou seu pé de serra, sua Vila do Araripe, sua Exu, em Pernambuco, e partiu para abraçar o mundo. Levou no matulão o seu cariri, o seu sertão — sofrido, sim, mas de uma fortaleza inigualável. Levou consigo o próprio Nordeste, sua gente e sua cultura.
Com sua sanfona e seus parceiros, Gonzaga iluminadamente criou o baião, o xote, o xaxado e o forró, transformando-se no Rei do Baião. Virou um artista considerado por muitos como a síntese, em termos musicais, de grandes nomes da literatura brasileira, como José Américo de Almeida, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e João Cabral de Mello Neto. Ou seja, o que estes monstros sagrados retrataram em seus livros, Luiz “Lua” Gonzaga também o fez, com identidade própria, em suas músicas.    

 

Após muita luta, enfrentando preconceitos e desafios tremendos, Luiz conseguiu apresentar e manter viva até hoje a música de raiz do povo nordestino. Falar em Luiz Gonzaga é prontamente associá-lo ao chamado forró “pé de serra”, ou seja, a autêntica música nordestina, por ele criada e divulgada. Mas é como diz a história: tudo o que o homem cria, também ele próprio modifica, às vezes para melhor. Já outras modificações terminam por se deteriorar e até mesmo por descaracterizar o que fora tão bem lapidado quando inicialmente criado. Antes de falecer, Luiz Gonzaga percebera que sua música, com o tempo, vinha sofrendo algumas alterações. É que alguns músicos, descompromissados com a verdadeira cultura de raiz, passaram a distorcer o forró, o xote, o xaxado e o baião. O Rei, sentindo o perigo, ainda chegou a protestar, cantando “Baião Polinário”.Ele parecia pressentir o que poderia acontecer com o baião, o xote, o xaxado e o forró. Passados 19 anos de sua morte. alguns poucos nordestinos lutam para manter acesa a chama do forró pé de serra, da música de raiz do Nordeste. Mas outros inúmeros nordestinos procuram inconcebivelmente destruir nossa música. O que se vê é número insignificante de artistas que, individualmente, procuram, por meio de carreira solo, apresentar um trabalho que se enquadre no perfil do verdadeiro forró, pois na verdade há uma prevalência de bandas, que, cantando um forró de plástico, divulgam em suas letras o inaceitável incentivo a uma vida promíscua, voltada para cabarés e bebedeiras, como se isso contribuísse de alguma forma para a construção de uma sociedade sadia. O verdadeiro forró ainda é sustentado por alguns artistas nordestinos, como Maciel Melo, Alcymar Monteiro, Pinto do Acordeom, Flávio José, Waldones, Clã Brasil, Adelmário Coelho e outros poucos. Mas, contrariando o curso natural da História, inversamente ao caminho que originariamente fora percorrido, hoje o forró encontra, em alguns grupos do Sudeste do país, os denominados universitários, precipuamente do Rio de Janeiro e de São Paulo, o apoio da continuidade do legado deixado por Luiz Gonzaga. O forró universitário resolveu encampar a luta de manter vivo o verdadeiro forró. É o caso do Fala Mansa e do Forroçacana, que conquistaram uma legião de fãs, tendo como ponto fundamental o forró pé de serra. Tocando músicas de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros clássicos da música nordestina, alcançaram o sucesso e somente mais adiante investiram na composição de um repertório próprio e original, contudo sem se afastar do toque do forró legítimo. Nosso Zé Ramalho referia-se assim, em março de 2000, ao Forróçacana: “Para mim, que conheço o som do Nordeste, aprendo com eles que a brasilidade é maior do que qualquer região, não importa onde nascemos, mas sim, para que viemos. Que se faça logo o tempo passar e, com isso, o lugar que é deles, seja preenchido com talento e cheiro de coisa alegre.”Há realmente coisas neste mundo difíceis de compreender. Como diz o ditado: “De onde menos se espera é que se encontra o apoio que se deseja”. Não há ou haverá forró plastificado que enterre a verdadeira música nordestina. Como tantos outros modismos, o forró de plástico passará — e o legítimo forró continuará reinando, para a felicidade do Nordeste.