O sertão que não existe mais

Revista Carta Capital – Setembro/ 2009
Pedro Alexandre Sanches 

Manifestações populares espontâneas a Luiz Gonzaga brotaram em diversos pontos do Nordesteneste agosto de 2009. Aevocação refere-se aos vinte anos da morte do músico pernambucano, maspossivelmente fazia referência indireta também à morte de um Nordeste que elecortantemente transformou em canção e que hoje não existe mais. 

Em retretas de sanfoneiros como aque la em tornode seu busto em Juazeiro do Norte (CE), no redondo 2 de agosto, cabiam mençõesao sertão caatingueiro, às canções sobre seca e abandono político (comoAsa Branca,de 1947), às vestes de couro inspiradas nos cangaceiros de Lampião. E cabiamloas à série fabulosa de invenções formuladas pelo “rei” do baião, do xaxado,do xote, do rojão, do coco, da quadrilha, do forró, da música pop tocada comsanfona, zabumba e triângulo (instrumentos antes pertencentes apenas aofolclore local). 

Hoje um Nordeste voltado ao progresso se sobrepõeàs imagens de “terra ardendo”, “braseiro”, “fornalha” (ou “fornaia”, como elepronunciava) e “nem um pé de ‘prantação’” de AsaBranca. Há quem se incomode com ostatus de “hino do Nordeste” adquirido por essa canção, como Lirinha, do grupoCordel do Fogo Encantado, nascido em cidade vizinha à Exu de Gonzaga econtrário à perpetuação da submissão inscrita em algumas de suas canções.Também costuma ser citado certo apego do patriarca musical a pendoresautoritários e conservadores, típicos do coronelismo, como na biografia Vidado Viajante (34, 1996), da francesa Dominique Dreyfus. 

São retratos do Nordeste percebido e difundidopelo cantor entre 1912 e 1989, de contraste vívido com o imaginário praiano dooutro grande retratista musical daquela região no século passado, o baianoDorival Caymmi (1914-2008). Aspectos que hoje pareçam anacrônicos em nadaarranham o legado colossal da obra registrada por Luiz Gonzaga entre 1941 e1989, em mais de 150 discos, entre compactos de 78 rpm e LPs (também nisso eleé duplo negativo de Caymmi e suas 101 canções).  

A saga épica segue preservada, e o comprova ocineasta Breno Silveira, que prepara, possivelmente para o ano do centenário deGonzaga, uma versão cinematográfica romanceada sobre a vida do viajante. Foramadquiridos os direitos de uso da biografia Gonzaguinha e Gonzagão – Uma história brasileira(Ediouro, 2006), de Regina Echeverria, centrada na tumultuadarelação entre pai e filho adotivo (embora fértil em canções, o artista erabiologicamente estéril). Seria sinal de que o diretor do também épico 2 Filhos de Francisco (2005) prepara novofilme fundado no tema da paternidade? “Não necessariamente”, diz a coprodutoraMárcia Braga. “Compramos mais para nos precaver de a ideia ser vendida paraoutra produtora.” 

Músico, Gonzaguinha (1945-1991) bateu de frentecom Gonzagão ao aderir à chamada “canção de protesto” na virada dos anos 1960para os 1970. Num mesmo disco (Canaã, de 1968), o pai, getulista e adepto da ditadura,compôs e gravou Canto sem Protesto e abrigouas primeiras composições de Gonzaguinha, entre elas Pobrezapor Pobreza (a mão ésempre a mesma que vive a me explorar,diz a letra). 

Não só em relação ao filho, submissão e insubordinaçãose confrontaram em Gonzaga. Segundo Dominique Dreyfus, quando moçoele tinha Lampião como herói, mas perseguiu cangaceiros por obediência. “Eu eraempregado do Exército, era soldado. Tinha disciplina. E eu sempre gostei dedisciplina”, afirmou à autora. 

O mito do cangaceiro ressurgiria em 1947, no Rio,onde o imigrante desenvolveu a maior parte de suas obras-primas de“nordestinidade” (e esse é ponto em comum com Caymmi). AsaBranca iniciava uma rota de sucesso, e Gonzaga abandonou osternos e gravatas para adotar o chapéu à moda de Lampião como símbolo deidentidade nordestina. A Rádio Nacional, dona de seu passe, proibiu areferência ao cangaço, mas engoliu o sapo diante do sucesso do figurino. Embreve ele completaria a estilização de cangaceiro com gibão de couro,cartucheira e sandálias. E seguiria apregoando a imagem de pretenso fora da leiem territórios de suposta legalidade. 

A tensão entre a clausura da disciplina e oespírito livre rendeu outras grandes canções sobre passarinhos, Acauã (de ZéDantas, 1952) e Assum Preto (1950).Nessa, Gonzaga e o futuro deputado cearense Humberto Teixeira despistavam odilema do pássaro que tem os olhos furados para “cantá mior”: Assumpreto véve sorto/ mas num pode avoá/ mil vez a sina de uma gaiola/ desde que océu, ai, pudesse oiá

Gonzaga borrou limites entre lei e desordemmusical de modo a não fazer feio no século de downloads e copylefts. Váriosclássicos assinados por ele, inclusive Asa Branca,pertenciam ao folclore nordestino e ao repertório de seu pai sanfoneiro,Januário. Em depoimento à biógrafa francesa, o músico deu a entender que, emalgumas das canções assinadas com Zé Dantas, era mais “sanfonizador” quecoautor. 

Com o apogeu da era do rádio, avolumava-se acultura (ou melhor, a economia) dos direitos autorais, e o expropriador viveriadias de expropriado. Em 1949, os norte-americanos Harold Steves e Irving Taylorverteram ao inglês e a cantora Peggy Lee gravou Juazeiro, ou melhor, Wandering Willow, sem crédito a Gonzaga e Teixeira. Processados porplágio, argumentaram que, como os brasileiros, inspiraram-se no folclore. Mas agravadora teve de recolher os discos das prateleiras. 

Criador e mantenedor do site www.luizluagonzaga.mus.br, obancário pernambucano Paulo Vanderley afirma que as homenagens nordestinas em2009, em sua maioria, “vêm de baixo para cima”. Num evento oficial de Exu, em 2de agosto, esteve o governador paulista José Serra. “As informações quecirculam por aqui é que ele queria atingir o Nordeste por meio de LuizGonzaga”, diz Vanderley. 

Para contrapor a noção do músico como retratistada submissão sertaneja, o fã cita Vozes da Seca, de 1953: “Ali ele diz que o nordestino não queresmola. É muito atual”. A letra dessa parceria com Zé Dantas flagraambiguidades entre nortistas e sulistas: Seudoutor, os nordestinos têm muita gratidão/ pelo auxílio dos sulistas/ nestaseca do sertão/ mas, doutor, uma esmola/ a um homem que é são/ ou lhe mata devergonha ou vicia o cidadão. Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem comer, arremata. 

Inúmeras ambiguidades forjaram a obra e o sucessomaciço de um artista ímpar, e talvez tamanha identificação viesse do dadoprosaico de que Gonzaga era tão ambíguo (e estéril) quanto a região e o país emque nascera. Mas e se houvesse férteis sementes de progresso e libertaçãoplantadas na aridez de Asa Branca e nosbaiões obedientes com que Luiz Gonzaga ajudou o Brasil a conhecer seu Nordeste?