Entrevistas

Luiz Gonzaga – OUT/1988

Sou apenas Humberto Teixeira

 

 

“LUIZ GONZAGA – OUT/1988”

Essa entrevista foi concedida ao jornalista Marcos Cirano e ao fotógrafo Pedro Luiz, num apartamento do bairro de Boa Viagem, Recife, a 17 de outubro de 1988.

Nove meses antes de morrer, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, deixou gravada uma conversa de mais de uma hora com os repórteres Marcos Cirano e Pedro Luís. Vários trechos desse depoimento permaneceram inéditos até hoje. Veja a íntegra da entrevista e saiba porque ela não foi publicada antes.

Marcos Cirano – São 50 anos de carreira. E aí?

Luiz Gonzaga – Eu acho que corri, corri, corri e acabei parando em casa.

Marcos Cirano – O senhor ta trabalhando um novo disco, né?

Luiz Gonzaga – É, todo mundo trabalha. Esse disco tem, realmente, uma grande importância para mim. Porque, mesmo que eu não quisesse parar, eu agora to condenando a isso, né, embora eu tenha a intenção de fazer tudo pra continuar. Porque, quando a gente cria, a gente tem obrigação de fazer cultura pra preservar as tradições, pra contar sua própria história. Porque, senão, ninguém vai querer contar, com a mesma empolgação, com o mesmo amor, com a mesma garra que eu sempre dediquei, de uma maneira completamente diferente, procurando sempre as estradas, sempre os caminhos em busca das cidades onde eu tinha certeza que existia uma colônia forte de cabeças-chatas esperando por mim. Então, aí eu instalei, instalava minhas tribunas. Estivesse onde estivesse: no noroeste, no oeste, no sul, em São Paulo, no sul do sul… Onde eu ia, encontrava as colônias nordestinas. Saudosas colônias sem administração, sem mando, furando novas…vamos dizer assim, procurando se apossar de um pedacinho de terra, um meio de vida melhor… E eu cantava pra eles, lá onde estivesses, as canções mais bonitas, as mais fortes, as mais tristes, que fazia todo mundo chorar… meu objetivo não era esse, mas acontecia. Às vezes, eles choravam com uma coisa alegre que eu cantasse. (Gonzagão tenta, mas não consegue prender o choro)

Marcos Cirano – Nesses 50 anos de carreira, o senhor fez tudo o que teve vontade? Na música e nas andanças.

Luiz Gonzaga – Só não fiz porque, naturalmente, meu talento não dava. Mas, enquanto meus companheiros achavam que as minhas idéias eram boas, a gente fazia juntos. Fora aquelas que eles criavam para mim… Humberto Teixeira, Zé Dantas. Antes deles, Miguel de Lima. Depois, Zé Marcolino, aqui do sertão, que morreu recentemente em desastre de automóvel… Então, assim, eu fiz, modéstia à parte, um grande acervo que ainda não está exposto, mas está em Exu, esperando a oportunidade de ser exposto no Museu Luiz Gonzaga.

Marcos Cirano – O que está faltando para esse acervo ficar exposto?

Luiz Gonzaga – Ta faltando administração, eu sou péssimo administrador. Material tem até sobrando, que dá até pra três museus. Mas, museu, no Brasil, parece palavrão… A minha intenção é de ajudar a imprensa e os pesquisadores que, quando precisarem escrever algo sobre Luiz Gonzaga, sobre Humberto Teixeira, Zé Dantas, meus outros excelentes companheiros como Onildo Almeida, Janduhy Filizola, ambos de Caruaru, então vocês vão ter condições de pesquisar capas de LPs, LPs, reportagens… Eu quero oferecer isso para você que tá me procurando aqui hoje e que é jovem, daqui há algum tempo você vai a Exu e lá você encontra tudo, todo acervo do Rei do Baião, fácil, fácil, palpável, e escreve o que você quiser. Não sobre mim, mas sobre o Nordeste, sobre as músicas que eu criei.

Gonzagão pára um instante, depois prossegue:

Descobri o Nordeste musical, musicalmente falando. Não foi o Nordeste, foi o Sertão. O Nordeste sempre teve os seus carnavais, suas festas tradicionais para exibir as suas canções. Mas, eu esbarrava sempre, no Rio de Janeiro, para vencer, contra tudo e era barreira quase invencível. De vez em quando, aparecia um seresteiro, como Augusto Calheiros e mais alguns, que, através de suas vozes, eles contavam as coisas engraçadas do Nordeste, como Manezinho Araújo.

Mas, não com a boa intenção que eu me apresentava, em cima de caminhão, levando o patrocinador nas costas, fazendo espetáculos nas praças públicas, improvisando espetáculos em determinadas praças…

Agora, tudo isso por quê? Porque eu não me achava bastante suficiente para concorrer com ninguém. Eu tinha que levar minha música diretamente àqueles que ignoravam totalmente o Nordeste. É claro que os colegas compareciam e coloriam o ambiente. Mas, o objetivo era cantar para os barrigas-verdes, os gaúchos, os caipiras, os cariocas. E conseguia, quase sempre, patrocinadores. Então, eu tinha liberdade. E assim, no meio desse público, eu era acolhido de surpresa até…

Ali no meio desse público tinha Caetano, tinha Gil, tinha muitos cantores doidos por aí, famosos hoje, que já mudaram de roupa várias vezes, hoje são até roqueiros, mas mesmo como roqueiros continuam afirmando que Luiz Gonzaga o influenciou, o influenciaram. E eu tava dando uma de Deus, escrevendo certo por linhas tortas. Totalmente despreparado mas, quando eu soltava alguma coisa, eles sentiam que tinha um sabor tão especial que não dá nem pra se lembrar qual a sua origem. E eu levava as coisas que aprendi na minha infância, com meu pai, as piadas do velho Januário, que meu pai era muito espirituoso. E fui me tornando um artista assim, espontâneo. Atingi praticamente todas as camadas sociais, cassinos etc., mas nunca me empolguei pela a cidade grande e a saudade do Nordeste sempre foi eterna. Hoje, graças a Deus, bem sucedido, menos com a saúde, continuo cantando com graça o meu forró. Como, por exemplo (recita):

Tô doidim pra me deitar naquela cama
To doidim pra me cobrir com teu lençol
Doidim pra te matar de cheiro
Juntar os travesseiros
Soprar o candeeiro e começar nosso forró

Esses versos vão ser gravados agora, são de uma música de João Silva e Luiz Gonzaga, do meu último LP. Nem decorei ainda, porque eu só péssimo decorador até das minhas próprias coisas. É uma mão-de-obra desgraçada! O nome dessa música é Vou te matar de cheiro. Quer dizer, uma linguagem dessa, meu filho, pra um cara que vem do mato… Isso sempre foi a minha primazia.

Marcos Cirano – Essa música é do novo disco que o senhor vai lançar?

Luiz Gonzaga – Essa música é do próximo LP. Até doente eu boto tempero e graça nas minhas coisas.

Marcos Cirano – Esse próximo disco já está todo pronto?

Luiz Gonzaga – Ta todo arrumado aí, as músicas feitas, mas a doença e a preguiça não me deixam fechar. Mas, como eu tô sentindo um cheiro de melhora… Eu tenho horas que eu sofro muito, porque eu tô sofrendo de uma doença chamada… (Gonzagão não consegue pronunciar a palavra osteoporose e pede auxílio a sua companheira Edelzuíta: como é o nome da danada da doença? Venha cá, você não pode ficar longe de mim, não, porque você é a minha memória)… Ela vem me atacar os ossos, justamente os que foram fraturados ao longo da minha carreira. Essa doença me ataca, tirando o meu rebolado e o meu charme. Meu charme agora é Edelzuíta. (A companheira de Gonzagão interfere: “Não bote isso aí não, que vai dar confusão”, mas ele insiste: Bote no jornal que o meu charme agora é ela, o amor de minha vida).

Marcos Cirano – Os acidentes que o senhor sofreu foram muitos. Alguns até acabaram virando música. Quantos acidentes foram?

Luiz Gonzaga – Ih!…Já perdi a conta. Fraturei dez costelas, fraturei a clavícula, fraturei o crânio e, agora, essa osteoporose está me derrubando. O primeiro acidente foi em 1951, foi aquele de Santos, que o carro mergulhou de uma ponte de uns quinze metros, com todos nós dentro. Deu até uma música de Zé Gonzaga, meu irmão (canta): E Luiz Gonzaga não morreu… De lá pra cá, foram mais uns quatro ou cinco acidentes. Mas, o que eu andei mais perto da morte foi esse que me fraturou aqui (aponta para o lado direito da testa). Eu fiz duas operações, porque atingiu o olho, mas acabei cegando dele. Isso foi na estrada de Miguel Pereira. Gonzaguinha tava comigo e o anão Salário-mínimo também. E a maior vítima foi eu. Mas escapei com vida. Isso foi em 1962, parece. (Gonzaga fica alguns instantes em silencio, depois continua): Mesmo assim, ainda me sobrou algum charme pra encontrar uma mulher bonita e inteligente pra tomar conta de mim.

Marcos Cirano – A osteoporose, o senhor vem sentindo desde quando?

Luiz Gonzaga – Ela só foi localizada agora, aqui no Recife. O primeiro ataque dela foi no fêmur. E é por isso que eu estou usando essas gonzaguetes (mostra as duas muletas que utiliza para andar, ainda assim com bastante dificuldade). E dizem que fêmur é bicho muito atrevido, até hoje ninguém encontrou medicina que o dominasse.

Marcos Cirano – Faz mais ou menos um ano que o senhor vem sentindo os sintomas da doença?

Luiz Gonzaga – Não, isso faz muito tempo. Mas, eu só vim me interessar depois que comecei a sentir a obrigação de usar muletas. Agora, vem de muito antes.

Marcos Cirano – Eu me lembro que, durante algumas apresentações na televisão, o senhor sempre estava aparecendo sentado, pra poder segurara a sanfona

Luiz Gonzaga – Pois é, pois é. E nem sanfona eu toco mais, não dá mais. Eu já não gravo com sanfona há mais de dez anos. Depois que eu comecei encontrar sanfoneiros capazes, tocando melhor do que eu (e Dominguinhos foi o primeiro) e esses sanfoneiros começaram a declarar que eu tinha sido seu incentivador, seu mestre, aí eu digo: e o que é que eu tô fazendo aqui tocando sanfona de graça, se minha voz vale muito mais do que minha tecla? Aí, passei a usar esses meninos me acompanhando, com muito mais arte, mais graça. Ora, se nessas alturas, eu já passei a ser conhecido como um afortunado de tantos dotes dados por Deus, nada melhor do que distribuir com aqueles que estavam seguindo meu caminho com honestidade. Tem Oswaldinho, Dominguinhos, Valdones de Fortaleza, um garoto de 15 anos tocando magistralmente, um garoto rico e bonito. O Valdones tem até um estúdio em casa, o pai faz todas as vontades dele, o garoto ta numa carreira bonita. Quer dizer, por isso eu acredito que o forró não vá morrer. O baião não morreu, o forró, feito do baião… Então, eu acredito que essa música vai pra frente. Porque o Nordesta dá isso, oferecendo sua graça.

Sábado agora, eu botei cerca de vinte mil pessoas no Spázio, uma verdadeira festa, muito bonita, feita especialmente pra mim. Estavam lá Fagner, Elba Ramalho, Genivaldo Lacerda, Gilberto Gil, Dominguinhos, Alcimar Monteiro que ta indo muito bem, Jorge de Altinho…

Pedro Luís – Jorge de Altinho andou sumido um tempo, né?

Luiz Gonzaga – Não, Jorge de Altinho é o mesmo. É porque, de repente, o forró tornou-se…é…demasiadamente oferecido. Quer dizer, várias fábricas… A minha fábrica, por exemplo, gravou esse ano seis discos de forró. Então, é muita oferta. Mas, Jorge de Altinho sempre foi um cara pra frente e irá muito mais. Como ele é jovem, ele pode mudar para onde quiser. Mas, ele é fiel ao forró.

Marcos Cirano – O seu novo disco vai ser lançado quando?

Luiz Gonzaga – Logo depois do carnaval, que é quando se começa a lançar forró, uma música sugestiva, uma música quente, cheia de graça. Depois do carnaval até junho é com nós. Nós ocupamos o miolo do ano.

Marcos Cirano – A partir de quando, mesmo, não deu mais para o senhor segurar a sanfona?

Luiz Gonzaga – Eu vinha tocando, porque ela sempre foi o meu apoio e eu sempre gostei. Porque eu criei um estilo. Mas, além desses problemas que eu sofri,me apareceu uma doença na coluna, as viagens muito prolongadas, horas e horas viajando de automóvel. E eu ia controlando. Quando eu perdi o rebolado, mesmo, que localizei o problema… demorei um pouco… eu disse: vou dar uma de professor, vou avisar a meus colegas pra ter muito cuidado com o peso da sanfona.

Vá ver que quase todo sanfoneiro está hoje meio corcunda. Porque eu criei uma arte muito pesada. Nós não temos condições, aqui no sertão, de pagarmos orquestras nem instrumentos eletrônicos. E a sanfona é um instrumento do ar livre e ela resolve um baile a noite inteira, gostosamente, com o seu próprio som. E os caboclos sanfoneiros, forrozeiros, gostam muito do seu trabalho e tocam a noite inteira, incarriado. Estão entrando num cano deslumbrante, como dizia aquele pernambucano que escrevia no jornal sobre futebol, humorista, que escreveu peças de teatro, que é irmão de Mário Filho, jornalista primoroso…

Como era mesmo o nome dele? Isso, Nelson Rodrigues. Ele foi quem criou esse termo cano deslumbrante. Eu entrei num cano deslumbrante. Então, foi isso. Essa doença, que tá aumentando cada vez mais em nós, a coluna vertebral, que trouxe também para mim. Aí, eu não podia mais com o peso da sanfona. Fazia um ensaiozinho, uma coisinha, mas vinha logo a dor.

Marcos Cirano – O senhor lembra qual foi o último show em que o senhor tocou?

Luiz Gonzaga – Não, eu não gosto de lembrar. Porque, só de lembrar, eu sinto dor. (Gonzagão baixa a cabeça, faz cara de choro e fica alguns instantes em silêncio).

Marcos Cirano – A sanfona pesa quantos quilos, normalmente?

Luiz Gonzaga – Quando eu comecei a tocar, o peso normal dela era de 12 quilos pra cima. Aí, eu passei a prestigiar a sanfona nacional, porque eu tinha acesso à fábrica e lá eu dava as minhas idéias. Naquela altura, nós tínhamos uma espécie de umas 12 fábricas de sanfona. Hoje, só temos uma e se arrasta. E eu dizia: “Olha, gente, deixo um pedido aqui do velho sanfoneiro e tal… Nós estamos usando instrumento errado, com o peso discoforme para o nosso físico, pra o nosso clima, principalmente para nós, nordestinos, que é que mais usamos sanfona. Manera no peso. Eu quero mandar fazer uma sanfona aqui com nove, dez quilos…” E consegui, eles fizeram. É tanto que todas as capas dos meus discos são com fotos de sanfonas brasileiras. Mas, a sanfona de Dominguinhos pesa 16 quilos. E eu falo com ele: “Te cuida, Dominguinhos! Você é grossinho, mas vai afinas as pernas, vai entortar as pernas.”Ta entortando. É muito peso, sabe?

Então, quando eu mi vi cantando sentado, eu aproveitava e fazia um pouco de apologia à sanfona e caía, justamente, nessa questão aí. Sim, porque os italianos eram os fabricantes de sanfona, não são mais, hoje já caíram fora. E o clima deles, já viu como é que é, né?… Clima frio. As comidas deles são saborosas, cheias de força. O físico deles é diferente, são sempre parrudos, mais do que nós… Por que, agora, a gente vai carregar o peso deles também? Isso eu falo no palco, quando estou bem disposto. Ou, quando tô sentindo dores, falo com raiva, né. Deus me deu o dom de falar, com a minha própria linguagem, despreocupado, sem medo de errar, porque o povo já sabe que eu não sou intelectual, então eu mando brasa. (Gonzagão ri gostosamente).

Marcos Cirano – Onde fica essa fábrica brasileira de sanfona?

Luiz Gonzaga – A única fábrica de sanfona, hoje no Brasil, fica no Rio Grande do Sul. Hoje, só tem a Universal. Essa fábrica não é dotada de bons técnicos. A que mais evoluiu foi uma chamada Todesquini. Mesmo assim, não agüentou, porque queria vender muito instrumento e não dava. Chegaram as guitarras eletrônicas, sanfonas eletrônicas e tal…

Marcos Cirano – Dá pra dar uma geral sobre o que vai ser o seu novo disco?

Luiz Gonzaga – Não, dá não. Porque eu só venho a decorar, mesmo, depois de gravar. É uma preguiça lascada.

Pedro Luís – Será que é outra doença, essa preguiça?

Luiz Gonzaga – Não, é não… Eu vou gravar uma música conhecida, chamada Estrada de Canindé… Não… É, deixa lembrar… Sertão de Jequié, que foi gravada por Dalva de Oliveira. (Gonzagão canta. Primeiro, confunde a letra com os versos de Estrada de Canindé. Depois, acerta a letra e canta Sertão de Jequié inteira). Essa música é de Cléssio Caldas e Armando Cavalcanti, dois carnavalescos do Rio de Janeiro, que me deram dois grandes sucessos: um foi Boiadeiro, que é meu prefixo e sufixo (cantarola) e me deram outra também muito bonita, chamada Meu cigarro de palha (canta). Eu cantava também, mas nunca gravei, vou gravar agora.

Marcos Cirano – Nunca gravou Meu cigarro de palha?!

Luiz Gonzaga – Não, não… peraí… Nunca gravei Sertão de Jequié.

Marcos Cirano – Além de Sertão de Jequié, o resto do disco é tudo músicas novas?

Luiz Gonzaga – É. Tem uma de Antônio Barros, que eu gostei muito, chama-se Coração de pudim: Meu coração é feito de manteiga ou de pudim/Molim, molim, molim, molim/Falei com esse sujeito pra não me deixar assim/Molim, molim, molim, molim… É uma música de Antônio Barros, aqui de João Pessoa. Ele me deu também outro forrozim muito gostoso, chamado Lagoa do Amor (cantarola alguns versos).

Marcos Cirano – Com esse disco a ser lançado no próximo ano, são quantos discos gravados durante os 50 anos de carreira?

Luiz Gonzaga – São 55. Com esse que vai sair, são 56. (Gonzagão comenta o disco que gravou com Fagner. Pergunta a Edelzuíta se ela quer ouvir uma faixa, pede que a companheira coloque a faixa que mais gostou e ela escolhe Amanhã eu vou. Enquanto todos, na sala, escutam a música, Gonzagão cantarola baixinho e de cabeça baixa. No final, reage): Ô véio enxuto da molesta! Tô com 76 anos nas costas, com 74 eu gravei isso aí. Nunca fumei, apesar de gostar muito daquele cheiro; de fazer propaganda de fumo… Mas, pra que fumar? Só pra imitar os outros?!

Marcos Cirano – E beber?

Luiz Gonzaga – Beberiquei algumas besteirinhas. Adorava uma cerveja lascada. (Dirigindo-se ao fotógrafo Pedro Luiz, Gonzagão pergunta): Você é de onde?

Pedro Luís – João Pessoa.

Luiz Gonzaga – Tinha que ser! Com essa cabeça de cangaceiro.

Marcos Cirano – Além do disco novo, quais os outros planos?

Luiz Gonzaga – Viver mais um pouco. Só. Show, mais não. Depois daquele show de anteontem! Foi uma coisa! Quinze ou vinte mil pessoas, e eu sentado lá no palco, vendo tudo isso e sem poder participar. Eu cantei Tropeiro da Borborema, que é uma das coisas mais bonitas de Raimundo Asfora, mas o bom da gente é a gente se sentir em condições de criar mais e ter a impressão que amanhã a gente pode criar um sucesso consagrador… Mas, eu já criei os meus, Asa Branca, Vozes da Seca, Baião, Luiz Respeita Januário… Pra onde é que eu vou mais? Eu me sinto completamente realizado. Mas, eu não gostaria de sair assim, carregado porque não tenho mais pernas. (Gonzagão fica alguns instantes e silêncio).

Marcos Cirano – Não tem mais pernas, mas tem uma grande voz. Vai ficar aí parado?

Luiz Gonzaga – Não, ainda tenho que fazer mais dois discos, por contrato. Além desse que vai sair o ano que vem, tem outro que ta pronto há dois anos e tudo indicava que ele não ia sair. Mas, só que tive uma coragem de leão em abandonar a RCA Victor aos 28 anos de serviço, 48 anos, 14 de março de 1941, quando eu entrei lá. Saí como um protesto e esse disco estava guardado lá, no fundo do baú. Terminei botando tudo pra fora, porque senti que a minha fábrica atual pode ganhar muito dinheiro com isso e eu não me incomodo que uma gravadora boa ganhe muito dinheiro comigo. Eu ganho o meu pouquinho e fico satisfeito, não chamo ninguém de ladrão. Eu quero é vender meu peixe.

Marcos Cirano – Por que o senhor deixou a RCA?

Luiz Gonzaga – Olha, é uma história tão escrota, tão podre, que eu nem gosto de contar. E eles estão aí, com três discos meus na praça: o Aí tem, o álbum e esse Amanhã eu vou. Então, eu vou ganhar uma nota muito boa e não quero dar uma de menino mal-agradecido, não tenho mais idade pra isso. Eu quero é me dar bem com as duas (gravadoras), eu quero é as duas brigando por minha causa. E a RCA vai levar vantagem, porque ela tem 48 anos de repertório meu. E a outra vai começar… Talvez isso seja até ruim, três discos na praça… A nova gravadora é a Copacabana, que foi muito leal comigo, foi tão bacana comigo. E eu desejo que as duas ganhem muito dinheiro comigo.

Marcos Cirano – Nenhum projeto para programa de televisão, apresentações?

Luiz Gonzaga – Nada, nada.

Marcos Cirano – Tá encerrando, mesmo? Uma vez, Dominguinhos disse que o senhor vai morrer no palco e que essa história de despedida era conversa, pois ele já tinha participado de um show de despedida sua, na década de 50.

Luiz Gonzaga – Em 1953? Será possível? Isso é conversa fiada, é o Dominguinhos me gozando. (Gonzagão dá uma gargalhada e pergunta): Já terminou? É, você sabe escrever, e aí vai dar pra você fazer sua reportagem. Você é de onde?….

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“Sou apenas Humberto Teixeira”

Nirez
Especial para O POVO
(4.7.2000)

Uma entrevista histórica e inédita com o “doutor do baião” concedida em 1977 ao pesquisador Nirez.

De tão pouco lembrado, o destino já fez sua fama: ser o compositor esquecido das grandes músicas que marcaram parte da vida musical do rei do baião, Luiz Gonzaga. Pois se poucos artistas conseguiram mergulhar na alma nordestina como Gonzagão, era Humberto Teixeira que estava por trás de inúmeras composições, como “Assum Preto”, “Paraíba”, “Juazeiro” e, principalmente, “Asa Branca”. Cantadas ao som do resfolego da sanfona do velho Lua e ouvidas pelo Brasil inteiro, a marca de uma gente que canta, apesar das dores constantes. Ali estava a assinatura deste cearense de Iguatu, o “doutor do baião”, que para muitos acabou esquecido nos créditos miúdos dos discos de seus intérpretes. Apesar disso, não é preciso puxar muito da memória para lembrar algumas de suas composições. Foi o caderno Sábado, do O POVO, que em 31 de dezembro de 1994, uma semana antes dos 80 anos do compositor cearense, dedicou-lhe uma edição e publicou uma entrevista histórica com o “doutor do baião”, concedida em 1977 ao pesquisador Nirez. O jornal antecipava ali uma entrevista que seria publicada no livreto Eu Sou Apenas Humberto Teixeira, também por ocasião do seu aniversário. Teixeira faleceu em 1979, dois anos depois da entrevista, e O POVO rendeu-lhe nova homenagem. Saudade, nosso remédio é lembrar…

Você vai ler a seguir uma raridade. Os arquivos dos jornais brasileiros – inclusive os cearenses – são incrivelmente pobres em relação a Humberto Teixeira. Quase nada foi registrado enquanto o “doutor do baião” estava vivo. Com sua morte, o nome do autor de “Asa Branca” caiu, inexplicavelmente, em um esquecimento ainda maior. A entrevista editada aqui em primeira mão pelo Sábado será publicada na íntegra junto com o CD comemorativo aos 80 anos de Humberto Teixeira, que será lançado em 1995 pela Memória Equatorial.

Nirez – Primeiramente, qual o seu nome completo?
Humberto Teixeira – Humberto Cavalcanti, com i (risos) Teixeira. O fato de eu usar só Humberto Teixeira criou, de certa forma, um problema dentro da minha casa. Minha mãe é muito ciosa do Cavalcanti. Ela é Cavalcanti de Albuquerque. Depois que o Gilberto Freyre escreveu que isso era a nobreza indígena do Brasil, ela não entende bem porque eu não uso o meu nome completo: Humberto Cavalcanti de Albuquerque Teixeira. Ela fazia questão disto. Eu digo: mas mamãe, nome artístico é preferível a gente abreviar e o nome do papai também é muito ilustre (risos).

Nirez – Quem era seu pai?
Humberto Teixeira – Meu pai era João Euclides Teixeira, filho de um chefe político do Interior, coronel Francisco Alves Teixeira, muito conhecido em todo o sul do Estado. Mas somos gente simples, minha origem é muito modesta. De qualquer maneira, meus pais se orgulham do nome que portam. Mas eu sou apenas Humberto Teixeira. Meu pai era João Euclides Teixeira e minha mãe, Lucíola Cavalcanti de Albuquerque Teixeira.

Nirez – Onde estudou as primeiras letras?
Humberto Teixeira – Estudei em Iguatu mesmo. Primeiro em casa, depois num colégio que tinha lá. Colégio do Dr. Rolim, era como se chamava. Depois aprendi o que o colégio podia me ensinar. Era um colégio modesto, não só nas suas instalações como também no seu professorado. De maneira que em pouco tempo meus pais sentiram a necessidade de me mandar pra Fortaleza, onde eu vim continuar meus estudos. Aqui fui deixado no Instituto São Luiz.

Nirez – Quando sentiu brotar dentro de si, pela primeira vez, a música?
Humberto Teixeira – Eu devia ter de 5 pra 6 anos de idade, quando meu pai me levou de presente um instrumento estranho que ele comprou aqui em Fortaleza. Era uma espécie de gaita com bocal, mas tinha um teclado de acordeon. Um instrumento que depois procurei muito e nunca mais vi. Não sei como aquilo veio bater no Ceará, numa casa de música daqui. Comecei a tentar a embocadura daquele instrumento e fui manejando o teclado e coisa e tal. O fato é que em pouco tempo já tocava no tal instrumentozinho estranho e bizarro. Tirei minhas primeiras músicas, as canções, as modinhas do lugar. Depois tornei a fazer minhas próprias modinhas, minhas próprias músicas. Claro que muito primárias, muito imaturas. Apenas uma manifestação muito objetiva de um pendor que minha mãe descobriu e logo em seguida me botou pra estudar flauta com meu tio Lafaiete Teixeira, o flautista da terra. Um homem formidável, extraordinário. Uma musicalidade dessas fantásticas. Mas minha vontade, lembro muito bem, era estudar piano. Tinha loucura pelo piano. Existiam algumas pessoas, todas moças, todas mulheres, que tocavam piano na minha terra. Quando manifestei esse desejo, meu pai disse: “Absolutamente! Vai estudar flauta ou outra coisa qualquer, mas negócio de piano não. Piano é coisa para mulher”. E daí essa frustração que carrego até hoje. Toco um pianozinho pra mim mas não me aventuro a mostrar nem nada. Depois da flauta eu estudei também bandolim. É um instrumento que eu cheguei a tocar lá em Iguatu. Depois, quando eu vim pra Fortaleza, é uma outra história.

Nirez – E quando veio pra Fortaleza? E por quê?
Humberto Teixeira – Meu pai me internou no antigo Colégio São Luiz, do Dr. Francisco de Menezes Pimentel. Eram os dois irmãos: Francisco de Menezes Pimentel Júnior e o outro, que tinha uma coisa muito rara, o mesmo nome do irmão, só que era o Francisco de Menezes Pimentel Sênior, aquele que mais adiante veio a ser Governador do Ceará e representou o Ceará como deputado e senador durante oitos anos. Um educador fora de série e que, incrível, muitos anos depois veio a se tornar meu colega na Câmara dos Deputados quando, através daquela suplência que eu consegui aqui, numa tentativa eleitoral, acabei dando com os costados no Parlamento. Até hoje eu não sei bem como. Tenho a impressão que foi o bico da asa branca que me levou pra lá.

Nirez – Aqui em Fortaleza, fez parte de algum conjunto?
Humberto Teixeira – Não. Ao mesmo tempo que fazia meus estudos no colégio São Luiz e posteriormente no Liceu do Ceará, estive matriculado num curso de flauta do maestro Antônio Moreira. Era um maestro muito conhecido aqui no Ceará. Tinha uma orquestra que tocava no Clube Iracema e no Cinema Majestic. Tocamos muitas vezes acompanhando aqueles filmes mudos. Lembro muito bem de um filme, The Big Parade, um filme de John Gilbert. Os artistas hoje estão todos desaparecidos. Tinha uma marcha que era: (canta) Pam ti tam ram tam tim tam. Nós tocávamos aquilo acompanhando na flauta. Eu, o Tarcísio, o maestro Antônio Moreira. Bons tempos. Eu me lembro muito bem.

Nirez – Quando foi para o Rio de Janeiro?
Humberto Teixeira – Fui pro Rio porque queria seguir Medicina. Mas descobri que eu ia ser doutor e não médico. Então mudei pro curso de advocacia e acabei me formando advogado.

Nirez – E qual foi a sua primeira composição?
Humberto Teixeira – Um dia cheguei para o maestro Antônio Moreira, usando um artifício, e disse: Olha, maestro: encontrei lá nos alfarrábios da minha mãe uma valsa antiga e gostaria de mostrar pro senhor. E toquei aquilo na flauta. O maestro disse: “Olha, é bonita. A melodia é interessante”. Ele perguntou pela letra e eu disse que depois levaria. E ele disse: “Mas há qualquer coisa aqui. Tenho a impressão que está quebrada, não sei bem. De onde é que sua mãe tirou isso?’ Então ele disse: “Olha Humberto, vamos deixar esta história de alfarrábio, negócio de sua mãe e coisa e tal. Isso aí é um negócio que você fez, não é?’ Eu digo: é sim, maestro. Ele disse: “Olha, tá muito bom, mas eu vou lhe ensinar. Tá faltando ainda a técnica da composição. Você tem que ajeitar aqui e ali e tal”. Ele me ajeitou e essa foi minha primeira música impressa. Era uma valsa que fiz em homenagem à miss Hermengarda, uma moça do Ceará que foi eleita miss num dos primeiros concursos desses que houve aqui. Eu, naquele encantamento, via aquela moça como uma coisa inatingível. Eu era garoto e sonhava. E acabei fazendo a tal valsa dedicada à missa Hermengarda, uma moça da família Gurgel – Hermengarda Gurgel, uma coisa assim. O maestro me fez uma surpresa maravilhosa. Mandou aquela valsa pra São Paulo e editou. Um belo dia, numa das aulas, ele me deu de presente a música editada através de uma editora, se eu não me engano, dos irmãos Vitale, de São Paulo.

Nirez – Houve uma que fez parte de um concurso e ganhou?
Humberto Teixeira – Houve. Eu levei pro Rio aquele mesmo ideal, aquela mesma flama, aquele mesmo elã, aquele mesmo pendor nato de música. Tentando de todas as formas abrir caminhos naquela selva doida. Levei anos e anos pra conseguir gravar minha primeira música. E eu não fazia outra coisa senão música de todo o tipo e feitio. Procurava os grandes cantores como Orlando Silva, Sílvio Caldas, Elisinha Coelho e Carmem Miranda, os cantores da época, mas eles não davam a menor confiança pra minha música. Havia dias que eu dizia pra mim mesmo: “Oh! Diabo. Tenho que abandonar isso. Devo ser muito ruim. Ninguém aceita minha música.” Mas é que eles tinham seus compromissos, seus compositores prediletos. E como bom cearense, perseverei. Até que um dia veio a primeira gravação. Mas neste intercurso, como eu não podia gravar, um dia entrei numa casa editora de música que até hoje existe no Rio, chamada a Guitarra de Prata. Eles lá submetiam à apreciação de um pianista, um chefe de orquestra, um maestro, eu não sei bem, toda e qualquer composição que você desse entrada lá, manuscrita. Se eles gostassem, sobretudo do título, se ela propiciasse botar um bonito clichê na capa, eles editavam. Até que eu gravasse a primeira música, editei na Guitarra de Prata mais de cem músicas de todos os gêneros que você pode avaliar. Músicas de caráter puramente nordestino, músicas estrangeiras, regtime, canções, modinhas, valsas. Foi quando comecei a receber os primeiros proventos, as primeiras dízimas resultantes de música, porque cada exemplar vendido dava um tostão para o autor. E eu vendi muitos exemplares de música: “A Mentira da Felicidade”, “Teu Coração é Um Pão Duro”, “A Virgem não sei de quê” e outros títulos. Eu me aprimorava nos títulos p2orque isso ajudava a vender a música.

Nirez – E o “Meu Pedacinho”?
Humberto Teixeira – Uma revista que não existe mais, O Malho, abriu um concurso pra músicas carnavalescas. Na época era um prêmio valiosíssimo. O primeiro lugar seria aquinhoado com cinco contos de réis. Centenas de autores do Rio, sobretudo aqueles consagrados, concorreriam. Os cinco premiados: Ary Barroso, Ary Kerner, Índio das Neves, José Maria de Abreu e Humberto Teixeira. Eu quase caí das nuvens e disse: não é possível. Deve ter um homônimo aí, um outro Humberto Teixeira. Mas logo em seguida a reportagem trazia o nome da minha música premiada. Apareci lá na redação da revista e conheci uma figura extraordinária que marcou muito a minha vida: Oswaldo Santiago. Compositor, mas sobretudo o criador do direito autoral no Brasil. Antes de Oswaldo Santiago não existia, isso era uma seara de todo mundo. A música não era mercadoria que rendesse juros, não existia nada disso. O Oswaldo Santiago é que, em arrancos de verdadeira genialidade e vendendo os mais incríveis ódios, instalou o direito autoral no Brasil. Mas eu conheci o Oswaldo Santiago e ele disse: “Mas menino, é você…’ Eu tinha naquela época 16 anos. Ele disse: “Eu tava pensando que Humberto Teixeira era uma figura aí, conhecida e coisa e tal. Mas você faz música?’ E pela primeira vez saiu um retrato meu impresso numa publicação. Mas entre as cinco premiadas, através de um espetáculo público no Teatro João Caetano, eles iriam selecionar os cinco prêmios. E aconteceu que, dentro da minha ingenuidade, da falta de prática dentro daquele metiêr, me descuidei inteiramente. E só fui ter ciência no dia do espetáculo. Então, quando eu chego no Teatro João Caetano, me barraram de saída. Até provar que era um dos autores premiados e que precisava entrar pra acompanhar minha música… Quando eu chego lá nos bastidores, onde tava aquela azáfama natural de uma véspera de espetáculo, encontro todo mundo ensaiando com suas músicas já orquestradas. A minha não tinha sido ensaiada, não tinha cantor, não tinha nada. Eu quase que morri de pena de mim mesmo lá dentro do teatro. Mas aí eu conheci outra figura formidável: Aracy de Almeida. À trouche, mouche, de pé quebrado, aquilo, ela lendo num pedacinho de papel de embrulho, cantou a minha música e ela tirou, claro, o 5° lugar porque não tinha 6°. Mas valeu a pena. Foi formidável a experiência. Mas não me abriu ainda as portas da gravação. Apenas editaram o “Meu Pedacinho”.

Nirez – Onde e em que circunstâncias conheceu Lauro Maia?
Humberto Teixeira – Lauro Maia eu conheci no Rio. Engraçado, eu não o conhecia antes, daqui do Ceará. Só o conhecia de nome, por um fato muito afetivo, muito de família. Lauro Maia na época namorava a minha irmã. Minha família tinha ficado no Ceará e só eu residia no Rio. E ele veio casar-se com minha irmã Djanira. Depois eles foram para o Rio e, claro, nessa ocasião é que eu fui apresentado ao Lauro Maia. Tudo que ele tinha gravado com os Quatro Ases & Um Curinga, que eram quase que exclusivos do Lauro Maia, eu conhecia. E quando ele foi pro Rio teve início uma grande amizade.

Nirez – Viveu da advocacia, da música ou de ambos?
Humberto Teixeira – Eu, no princípio, vivi de advocacia, mas eu pratiquei mil instrumentos. Pra sobreviver no Rio fiz coisas do arco da velha. Vendi óculos Ray Ban, fui agente de restaurante, telefonista, fiz concurso pro Ministério Público. Depois que me formei, abriu meu próprio escritório de sociedade com dois ou três colegas da minha turma. Eu cuidava de tudo. Defendia o sujeito que matava o outro no campo de futebol, o que roubava o vizinho.

Nirez – Quando casou-se e com quem?
Humberto Teixeira – Eu resisti muito ao casamento. Eu levava aquela vida, na época, depois que passaram as vacas magras, eu passei a ter uma vida muito boa, fui um boêmio. Vivi durante dez anos na noite e naquelas amizades com artistas, cineastas. Meus grandes amigos eram Anselmo Duarte, de cinema, Jardel Filho, de Teatro, Jorge Dória, Francisco Carlos, que depois eu lancei na música e tudo isso. Mas qual foi mesmo a pergunta que você me fez?

Nirez – Quando casou-se e com quem?
Humberto Teixeira – Ah, sim. De maneira que com aquela boa vida eu resisti muito ao casamento. Mas como não podia deixar de ser, um dia caí (risos). Eu me casei com uma moça chamada Margarida Pólis, uma moça de São Paulo, de Bauru. Artista, pianista, uma pianista exímia, maravilhosa e tudo isso. Eu estive casado durante sete anos, depois me separei. Contingências, coisas, enfim, da vida. Quando eu readquiri a minha liberdade, resolvi nunca mais soltá-la. Então eu sou um solteirão até hoje, de amores dispersos, coisas que passam, vão e vêm, mas nada de querer me molhar (risos). Agora, do meu casamento ficou a prenda maior da minha vida. É ela e minha mãe. É minha filha (Denise Dumont). Tenho um neto que se parece muito comigo, muito bonito. Eu não estou aqui fazendo aquele negócio dos avós corujas não, é que ele realmente puxou à minha filha, que é muito bonita, e ao pai, um rapaz bonito de televisão. É o Cláudio Marzo, aquele artista.

Nirez – Como você entrou na política?
Humberto Teixeira – Eu tinha sido eleito, três anos seguidos, como o melhor compositor nacional num daqueles concursos organizados pela Revista do Rádio. Fui escalado, nesse ano do tricampeonato, como o orador que agradeceria a solenidade. Foi no Teatro Municipal. O padrinho, por acaso, era o doutor Adhemar de Barros, candidato em potencial à Presidência da República. Depois que eu fiz o meu discurso, o doutor Adhemar me chamou e disse: “Olha, rapaz. Você é um bom orador. Vá lá na sua terra. Eu vou lhe dar uma legenda, você vai se candidatar”. E meteu aquela coisa na cabeça. Eu disse: Doutor Adhemar, eu não entendo nada de política, eu não conheço nada, eu não tenho nenhuma base política no meu Estado. “Tem a sua música, não vá atrás disso não. O importante é ter legenda, coisa que todo mundo quer e eu tô lhe dando”. E eu vim. Foi uma aventura. Eu saí com uma suplência que acabou me botando no Parlamento. Acabei diplomado deputado federal. Luiz Gonzaga, o querido e velho e atual e sempre parceiro e amigo, estava em Currais Novos, eu acho que no Rio Grande do Norte. Quando ele soube que eu vim, saiu de lá e veio me prestar uma ajuda maravilhosa, inclusive de transporte e gasolina porque eu não tinha um tostão. Luiz Gonzaga e o bico da asa branca é que me botaram lá no Parlamento Nacional.

Nirez – E a sua primeira parceria com Lauro Maia, foi o “Samba de Roça”?
Humberto Teixeira – Minha primeira demonstração musical ao lado Lauro não foi propriamente uma parceria. O Menezes Pimentel tinha me pedido pra eu fazer uma música. Tava pra se abrir uma estação de rádio e ele me pediu pra fazer uma música sobre o Ceará. Ele nem precisava pedir porque eu já tinha feito. Eu já havia composto uma música apoteótica, naquele gênero das músicas do Ary Barroso, gravada por Déo e a participação de Lauro Maia. Ele foi quem orquestrou e conduziu a orquestra na gravação de “Terra da Luz”, esse poema sinfônico que eu fiz, ou por outra, semi-sinfônico. Era uma música de exaltação e, você deve saber, foi muito bem aceita aqui no Ceará, tornando-se inclusive prefixo musical de estações de rádio e televisão.

Nirez – E a parceria propriamente dita?
Humberto Teixeira – Não sou muito bom de datas e de cronologia. Vou falando ao sabor do que vou lembrando. Fizemos talvez uma dezena de músicas. Eu não sei se passa disso. Meu contato com o Lauro era mais afetivo do que propriamente musical. Lauro era poeta também. Não sei onde começava o poeta e onde terminava o músico nas coisas que eu fiz com ele. E isso gerou um desacerto que me magoou muito, mas que nunca dei importância maior no sentido de tomar represálias. Em uma parceria daquele tipo você entra numa intimidade quase fraterna. Tinha músicas inteiramente minhas, não só música como letra, e que o Lauro figurou na parceria. Da mesma forma que eu com ele. Outras músicas formidáveis que o Lauro tinha e que eu reletrei, botei a letra inteira. Mas, como algumas dessas músicas, antes do Lauro ir pra lá, eram conhecidas aqui, surgiu uma história de que eu estaria me aproveitando de músicas dele. O que é pior, depois da morte do Lauro, disseram que eu herdei o baú de músicas do Lauro. Isto é um negócio grosseiro, injusto. Minha principal obra está vinculada à minha parceria com Luiz Gonzaga. Pelo menos meus grandes sucessos foram feitos com Luiz Gonzaga e, ao que eu saiba, Lauro Maia nunca compôs um baião. Eu costumo dizer o seguinte: o baião deslizou no tapete, na esteira, na trilha que o balanceio deixou. Mas tenho a impressão que às vezes isso é uma espécie de manifestação de ternura do próprio Estado, do povo, enfim. O Lauro Maia era queridíssimo. Eu não vivi o meu sucesso aqui no Ceará, eu saí muito cedo. A história do meu sucesso e a morte prematura do Lauro deflagraram um negócio muito natural pra aceitação de uma história tão grosseira como essa.

Nirez – Como foi esse contato com Luiz Gonzaga?
Humberto Teixeira – O Luiz Gonzaga, tal como eu, como Lauro, estava fazendo os primeiros sucessos dele com a “Mula Preta”, com “Xamego”, com as músicas que ele fazia com o Miguel Lima. Mas a vontade do Luiz era lançar a música do Norte, como ele chamava. Ele não dizia no Nordeste. Ele procurou o Lauro Maia e o Lauro disse: “Olha rapaz. Esse negócio de campanha, isso me apavora. Eu sou um homem indisciplinado, eu não guardo coisas nem compromisso de um dia pro outro. Acho mais interessante você procurar meu cunhado Humberto Teixeira. Ele também é compositor. Ele é mais organizado”. Um belo dia, estou no meu escritório de advogado lá no Rio, quando me procurou o Luiz Gonzaga. Ficamos, naquela tarde, de quatro e meia até quase meia-noite, nesse primeiro encontro. Naquele dia nós chegamos a duas conclusões muito interessantes. Uma delas é que a música ou o ritmo que iria servir de lastro para nossa campanha de lançamento da música do Norte, a música nordestina no Sul, seria o baião. Nós achamos que era o que tinha características mais fáceis, mais uniformes. Naquele mesmo dia nós fizemos os primeiros versos, discutimos as primeiras idéias em torno da “Asa Branca”, que só dois anos depois foi gravada. No dia em que gravamos, com o conjunto de Canhoto, ele disse assim: “Mas, puxa, vocês depois de um negócio desses, de sucessos, vêm cantar moda de igreja, de cego, aqui? Que troço horrível!’. Aí então, eles com um pires na mão, saíam pedindo, brincando, uma esmola pro Luiz e pra mim dentro do estúdio. Mal sabiam eles que nós estávamos gravando ali uma das páginas mais maravilhosas da música brasileira. Três dias depois do primeiro encontro com Luiz Gonzaga já fizemos, de pedra e cal, o primeiro baião que se gravou em todo o mundo: “Eu vou mostrar pra vocês/ Como se dança o baião/ E quem quiser aprender/ É favor prestar atenção…’ Eu me sentia como se estivesse com bitola, aquela coisa toda pinicadazinha, cortada, sujeita àquele ritmo quadrado. Logo depois descobrimos que podíamos deixar o ritmo solto e extravasar nosso lirismo. Depois veio “Juazeiro”, veio “Xanduzinha”. Era o início de centenas de músicas que fizemos juntos. Muita gente hoje pergunta como é que eu me deixei ofuscar, me ocultar tão inteiramente assim à sombra do prestígio fabuloso que o Luiz granjeou, sobretudo no que diz respeito à autoria. Principalmente depois do processo de mitificação de Luiz Gonzaga, da redescoberta que a onda baiana fez em torno dele, muita gente diz que eu sou o letrista das músicas de Gonzaga. Não existe isso. Muitas delas são minhas integralmente. Letra, música e tudo. Como outras são do Luiz. O baião, se tivesse sido feito só por mim, continuaria sendo apenas um negócio inédito, ao passo que com o Luiz ele se tornou esse marco extraordinário dentro da música popular brasileira marcando uma década de sucessos fantásticos. De 47 a 57, quer queiram, quer não, os documentos, a história dos suplementos, das fábricas, as gravadoras, o rendimento autoral das sociedades, tudo era feito em torno do baião. O Luiz, por exemplo, tem uma mágoa que você não pode avaliar, em torno disso. Os aprendizes de historiadores da música popular brasileira pulam de 47 pra Bossa Nova. Eles falam da música brasileira, o choro, a parte do choro, a parte daquilo, a parte da Bossa Nova, a parte da Tropicália e não sei o que mais. E o baião não existe? Por que querer botar uma esponja em 10 anos de sucesso? O Luiz foi um pioneiro em vários aspectos. Veja você que quando os cantores, os compositores se apresentavam de smoking, de terninho e gravatinha, o Luiz já vinha de talabarte, chapéu de couro e tudo. Pra mim o Luiz Gonzaga foi o primeiro hippie da música popular brasileira.

Nirez – Quando e de quem recebeu o cognome Doutor do Baião?
Humberto Teixeira – Isso foi o Luiz. Eu não sei se o Luiz, com tanta realeza, tava assim já entrando em fastio e aí resolveu me dar uma fatia da coisa. Foi o Luiz Gonzaga que me chamou pela primeira vez de Doutor do Baião e isso ficou. De uma certa forma, deveu-se ao fato de eu ser advogado, o intelectual do baião, como ele dizia. Mas eu não sou doutor de coisa nenhuma.

Nirez – Como nasceu a Academia de Música Popular?
Humberto Teixeira – Em 1958, eu, o Lamartine Babo, o Braguinha, o Roberto Martins, o Ataulfo Alves e mais uns dois ou três amigos da mesma sociedade a que nós pertencíamos, muito deles já falecidos, achamos que devíamos criar uma academia onde nós pudéssemos preservar nossa obra. Você sabe que todo artista é aleatório, é descuidado, indisciplinado, não guarda nada. De maneira que imaginamos fazer um repositório das nossas coisas em torno de um arquivo. Criamos a Academia Brasileira de Música Popular com 50 imortais. Inclusive eu gostaria de dizer pra você nesse depoimento que o meu patrono é Lauro Maia.

Nirez – O “Juazeiro” foi plagiado pelos americanos. Como foi aquela história?
Humberto Teixeira – Um marinheiro americano pegou o disco com o “Juazeiro” no Rio, levou e gravou com outro nome. O que é incrível é que ele, através de um processo tecnológico até conhecido aí, copiou o disco, tirando a letra e aí botaram em cima a letra de Peggy Lee. Você escuta no disco de Peggy Lee os acordes d’Os Cariocas. Isso é que é impressionante. Mudaram o nome, mudaram tudo. Mas o plágio não foi lá não. O plágio se estendeu à França, onde ela foi gravada com o título de “Le Voyageur”, O viajante. Eu encontrei e tenho esse disco também. Nós nunca conseguimos nos ressarcir desses direitos injuriados e usurpados, nada disso. E o que é mais incrível: a Peggy Lee, numa viagem que eu fiz aos Estados Unidos, tornou-se minha amiga. Eu contei o fato pra ela e ela disse que era inocente e que tinha gravado uma música que a fábrica havia lhe dado. Ela dizia: “Não tenho nada com isso. O que você está contando me traz até remorso”.

Cearense de Iguatu

Humberto Teixeira nasceu em Iguatu, no dia 5 de janeiro de 1915, filho de João Euclides Teixeira e Lucíola Cavalcanti de Albuquerque Teixeira. Também sobrinho do maestro cearense Lafaiete Teixeira, que o ensinou a tocar bandolim. As primeiras letras musicais, Humberto Teixeira estudou em casa mesmo. Aos 13 anos de idade, já morando em Fortaleza, ele fez sua primeira composição, a “Valsa Triste”. A primeira música impressa, como conta a Nirez, foi a valsa Miss Hermengarda, dedicada a uma das misses de bairros de Fortaleza. Em Fortaleza, Humberto Teixeira fez parte da orquestra do maestro Antônio Moreira, o Moreirinha, quem lhe ensinou a tocar flauta.

Medicina, Direito e Música

Em 1931, Humberto Teixeira debandou para o Rio de Janeiro e investiu na Medicina. Desistiu e resolveu tentar o Direito. Acabou mesmo como advogado. Porém, tudo foi feito sem que ele largasse as notas musicais. Foi a partir de 1934, quando participou de um concurso de músicas carnavalescas, que Humberto Teixeira começou a despertar a atenção das gravadoras. Entre uma investida e outra, ele conseguiu emplacar a música “Sinfonia do Café”, feita especialmente para a peça beneficente Muiraquitã, encenada no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro. Era o que faltava para realizar o sonho de gravar um disco próprio.

Encontro com Luiz Gonzaga

O encontro com Luiz Gonzaga aconteceu no escritório de advocacia de Teixeira, no Rio. Gonzaga estava atrás de um parceiro, tão nordestino quanto ele, para mostrar ao Sul que o sertão também tinha música boa. Foi aí que o baião começou a ganhar projeção. O ritmo sertanejo, propalado há dezenas de anos pelas bandinhas e cantorias de cego, ganhava roupagem nova na letra de Humberto Teixeira e na voz de Luiz Gonzaga. “Baião” foi a primeira música do gênero gravada: “Eu vou mostrar pra vocês/ Como se dança um baião… Eu já dancei balanceio, chamego, samba e xerém/ Mas o baião tem um quê/ Que as outras danças não têm…”

Sucessos

Depois de muitos sucessos, como “Asa Branca”, “Assum Preto” e “Juazeiro”, a parceria com Gonzagão se desfez em 1950. Humberto, porém, não parou seu caminho. Foi eleito pela Revista do Rádio como o melhor compositor nacional, por três anos consecutivos – 1950, 1951 e 1952. Fundou a Academia Brasileira de Música Popular e tornou-se deputado federal pelo Ceará. Na política, criou a Lei Humberto Teixeira, que obrigava o poder público a liberar recursos para artistas brasileiros apresentarem a nossa música no exterior.

Outras parcerias

Com o cunhado Lauro Maia, Humberto Teixeira compôs “Samba de Roça” (1945), “Só uma Louca não Vê” (1946), gravados originalmente por Orlando Silva, “Deus Me Perdoe”, “A Marcha do Balanceio” (1946) e “Poema Imortal” (1947), valsa também na voz de Orlando Silva. Sivuca foi outro parceiro de relevância inconteste, como em “Adeus Minhas Fulô” (1951). Com Carlos Barroso, o samba “Morena dos Meus Sonhos” se imortalizou na gravação do conjunto Quatro Azes e Um Coringa.

“Insinuações tropicalistas”

Após a parceria com Luiz Gonzaga e a passagem na política, foi na década de 70 que alguns dos baianos mais famosos da música popular brasileira tiraram a poeira do baião, reconhecendo nele “insinuações tropicalistas”. O resultado foi a gravação de “Asa Branca”, por Caetano Veloso, numa versão mais melancólica do que a original; Gal Costa cristalizando “Assum Preto”; e Gilberto Gil ressuscitando “Dezessete Légua e Meia”.

Humberto Teixeira 80 anos

Um CD foi produzido pelo cearense Calé Alencar pelos 80 anos de Humberto Teixeira, completados se ele estivesse vivo em 5 de janeiro de 1995. O disco reúne 20 músicas assinadas por Teixeira e seus parceiros, entre gravações originais e regravações com cantores convidados.

Liberdade após casamento

Humberto Teixeira foi casado por sete anos com a paulista Margarida Pólis, de quem se separou a pretexto de “reconquistar” a liberdade. Do casamento, deixou uma única filha, a atriz Denise Dumont, que há alguns anos vive nos Estados Unidos. A morte de Teixeira veio em outubro de 1979, vítima de um enfarte. Morreu aos 64 anos de idade, em seu apartamento, no Rio de Janeiro.